TEMPOS SOMBRIOS

No final de 2019, o mundo foi brutalmente atingido pela pandemia da COVID-19. Cidades inteiras foram silenciadas, empresas fecharam suas portas e as famílias foram forçadas a se isolarem. As mudanças e desafios eram diários, mas a humanidade se adaptava da melhor maneira possível, usando a tecnologia como uma ferramenta principal para se conectar e trabalhar.


Em uma casa particular, a família formada por Natacha, Marcos e Alex tentava se adaptar a essa nova realidade. Natacha, uma renomada cientista, sempre foi envolvida profundamente com seu trabalho em um prestigiado laboratório de saúde. Sua dedicação frequentemente a mantinha longe de casa, mas ela confiava no marido Marcos, para estar lá por Alex.


Marcos sempre foi um pai exemplar. Desde o nascimento de Alex, ele se mostrou extremamente presente, sendo não só o cuidador, mas também o melhor amigo do menino. No entanto, nos últimos anos, uma mudança perceptível em seu comportamento começou a surgir. Ele parecia distante e




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frequentemente perdido em pensamentos, mesmo quando estava fisicamente presente.


O vínculo entre pai e filho era inquebrável, com Marcos ensinando Alex sobre o mundo e compartilhando histórias e risadas. Eles eram mais do que apenas pai e filho; eram verdadeiros camaradas.


Porém, o mundo de Alex desmoronou quando foi diagnosticado com câncer. A notícia devastadora foi um choque para Natacha, que já lidava com a crescente distância emocional de Marcos. E, em meio à luta de Alex contra a doença, Marcos revelou seu segredo: ele estava tendo um caso com uma colega de trabalho e decidiu deixar sua família para começar uma nova vida com ela.


A traição, somada ao diagnóstico de Alex, fez com que mãe e filho se aproximassem mais. Unidos pela dor e pelas circunstâncias, eles se tornaram uma fonte inabalável de apoio um para o outro.


Enquanto o mundo continuava sua lenta recuperação em 2023, Natacha e Alex enfrentavam seus próprios desafios. O papel central da tecnologia no mundo pós-





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pandêmico começaria a desempenhar um papel crucial em suas vidas, levando-os por um caminho de descobertas, esperança e, eventualmente, redenção.


Depois da devastadora notícia do câncer de Alex e da dolorosa partida de Marcos, Natacha tomou uma decisão difícil: afastar-se do serviço para estar integralmente com Alex, acompanhando-o em casa e em suas constantes idas ao hospital.


Alex, um jovem que sempre irradiava alegria e vivacidade, estava abatido, o tratamento o havia enfraquecido e seu espírito outrora vibrante agora parecia minguar. Mesmo assim, ele encontrava algum consolo nas ocasionais ligações de seu pai, Marcos, tentando manter algum vínculo, mesmo que frágil.


A situação tomou um rumo ainda mais sombrio quando, após uma bateria de exames, o médico solicitou falar em particular com Natacha. Longe dos olhos curiosos de Alex, ele a informou que o câncer no estômago de Alex era agressivamente avançado e estava se espalhando rapidamente. As opções estavam se





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esgotando.


Consumida pela determinação de encontrar uma cura, Natacha decidiu retornar ao seu trabalho no laboratório, redobrando seus esforços e horas de pesquisa. Contratou uma cuidadora para Alex, buscando proporcionar ao filho todo o suporte necessário em sua ausência. No entanto, essa decisão não foi bem aceita por Alex.


Ele estava acostumado com a constante presença e carinho da mãe e se ressentiu de sua repentina ausência. Em uma de suas raras conversas, ele a questionou sobre o retorno ao laboratório, mas Natacha, tentando protegê-lo, desconversou, evitando revelar a terrível verdade.


Internamente, Natacha estava dilacerada. A dor de não poder estar ao lado de seu filho naqueles momentos cruciais e a angústia de não encontrar uma solução para sua doença a consumiam. A cada dia, ela se perguntava: "E se eu estiver desperdiçando os últimos momentos ao lado de Alex e, mesmo assim, não encontrar uma cura?"


Já havia se passado vários meses nesse ritmo









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frenético quando, inesperadamente, uma ligação de Alana trouxe um novo sopro de esperança. Ela tinha ouvido falar da história de Alex e acreditava ter uma proposta que poderia mudar tudo.


Alana Mendonça, uma engenheira de software brilhante e especialista em inteligência artificial, era conhecida por suas contribuições inovadoras na área de tecnologia.


Com uma personalidade vibrante e um espírito sempre inquisitivo, Alana sempre foi movida pela curiosidade e pelo desejo de ultrapassar os limites da ciência.


Tendo colaborado com Natacha em alguns projetos anteriores, as duas tinham uma relação profissional baseada no respeito mútuo por suas respectivas habilidades.


Foi durante uma noite tranquila, enquanto revia algumas publicações científicas, que Alana teve uma iluminação. Ela pensou na condição de Alex e na agonia de Natacha, e uma ideia começou a se formar em sua mente.





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Alana tinha uma proposta diferente: ao invés de curar o corpo de Alex, por que não preservar sua mente? A ideia era audaciosa. Criar uma versão digital do cérebro de Alex, permitindo que ele continuasse a existir e interagir no mundo virtual. Mesmo sem seu corpo físico, Alex ainda estaria lá, podendo aprender, crescer e estar com sua mãe.

A sugestão de Alana, à primeira vista, abalou profundamente Natacha. Era um desafio aceitar a ideia de que seu amado filho, Alex, poderia ser transformado em uma entidade digital. Todavia, diante da dura realidade da doença de Alex e a contagem regressiva para sua partida, Natacha viu-se diante de uma escolha excruciante e optou por seguir com o audacioso projeto.


Desta decisão nasceu uma jornada intensa, repleta de desafios técnicos, éticos e emocionais. Movida por um amor materno profundo e inabalável, Natacha se comprometeu a garantir que a essência de Alex continuasse viva, transcendendo a fragilidade de seu corpo físico. Esta é uma história que celebra a tenacidade do espírito humano e o potencial redentor da tecnologia, mesmo nas circunstâncias mais sombrias.





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